ao som de um jazzsinho, faz tempo que não oiço esse LP da Ella Fitzgerald…

Muita gente ficou sabendo de meu suicídio. E algumas dessas pessoas devem ter se indagado “oh, qual o motivo disso?”. Vou explicar tudo, aqui, para vocês.

Descrença e desilusão

Quando você acredita em muitas coisas, acho que tem a tendência de quebrar a cara vezes e vezes. Eu acredito (sim, ainda acredito!) e tenho esperanças enormes no ser humano. No sentido de que todos nós podemos compreender determinadas coisas, como a inutilidade de tudo o que fazemos, a necessidade do humor, a necessidade de nos entregarmos uns aos outros, não importando os limites.

E eu tomo muitas dessas atitudes. Confio muito nas pessoas, me entrego pra elas, de modo muito inocente, às vezes. Não significa que eu não odeie ninguém – eu odeio, e aos montes, – mas que eu gosto plenamente de quem eu gosto. Sem frescuras. Acredito na capacidade de amar infinitamente, coisa que eu cultivo.

Mas nem todo mundo está motivado a se entregar aos outros.

E isso quebrou minhas pernas, pois me entreguei, e uma pessoa em particular, não. Vou lhes dizer, quando você mergulha de cabeça em uma relação e ela acaba… Você também fica acabado.

Isso começou a fazer crescer a descrença e desilusão que eu já estava sentindo, e isso, aliado ao tédio a conversas profundas no MSN, me fez ter a idéia de suicídio. Ares novos, pessoas já imortalizadas, pegar autógrafos de pessoas pouco conhecidas, como John Lennon ou Jimi Hendrix.

Laurêncio Nobélio Mendelévio

Muito antes de sequer pensar em suicídio, eu havia criado um alterego bastante peculiar. Minha idéia era a de que, quando eu fosse exposto a situações ruins, eu tivesse um conjunto de características e um nome para reuní-las, de modo que eu pudesse atuar e passar por essas situações sem problemas. Porém, não o fiz perfeito para reagir à todas as situações, nem antagônico a mim; fí-lo estranho, cheio de problemas bizarros, como bibliofobia. Assim ele não tomaria o lugar do rev. Beraldo.

Meu alterego é, pois, um personagem. Uma alternativa ao rev. Beraldo, a salvação nas provas de química (Laurêncio adora química, ao passo que eu odeio).

Ele foi a ferramenta mais importante de meu suicídio. “Ora, se vou me suicidar, como mantenho esse corpo funcionando, se alimentando, vivendo, enfim, para aproveitar prováveis oportunidades que podem surgir (e que, de fato, surgiram)?”. “Simples, Beraldo, simples”, me respondeu meu alterego, “use-me!”. Eu compreendi que ele queria apenas meu corpo integralmente por um tempo, mas achei a idéia genial.

Suicídio

Com tudo pronto, era hora de me matar. Passear pelos Campos Elísios, ou por qualquer outro lugar que fosse interessante. A idéia original era voltar e contar tudo para vocês, mas aconteceram tantas coisas fantásticas, que seria inútil meu esforço em descrevê-las. De qualquer forma, me matei. No trigésimo nono dia da Confusão de 3174 YOLD, morreu o rev. Beraldo.

Ressurreição

Resolvi não quebrar com a tradição, e minha ressurreição aconteceu no terceiro dia após minha morte, ou seja, no quadragésimo segundo (42!) dia da Confusão de 3174 YOLD. Apesar de parecer pequena minha estadia nos diversos lugares que as religiões descrevem como sendo o repositório das almas (e por lugares inimagináveis, também), ela de fato durou muito mais. É apenas para vocês que durou tão pouco. Eu demorei para avisar sobre a minha volta, pois é um verdadeiro inferno a burocracia que existe para quando você volta à vida.

Resolvi renascer após ler O Lobo da Estepe, do Hermann Hesse, livro que fala da melancolia de um homem velho e como ele aprende a dançar. Eu não aprendi a dançar, mas fui resgatado pelo humor… Elemento discordiano, também!

E agora, o que muda?

Muita coisa mudou. Para começar, o rev. Beraldo deixou de existir, e Laurêncio ganhou muita importância na composição daquilo que eu chamo de personalidade, mas que de fato é fragmentadíssima (o que é bom). Em segundo lugar, um novo nome sagrado discordiano me foi concedido por Éris, e eu o aceitei com gratidão. Aproveito para compartilhá-lo com vocês:

=Papa= Reverendo Rafael Luis Apscal Rasputin Dionisio Trimegisto Beraldo, Guardião do Sagrado Cao, Alto Sacerdote (ou Polipadre, dependendo da intimidade) da Cabala Cavalo-de-pau de Éris & Tzara, cinco vezes Campeão do Mundo no Torneio Mundial de Tetris em Stalingrado, conhecido como “O Reverendo do Escrever na Areia (por ter traduzido o Principia Discordia para o Sânscrito, o Árabe e o Hebreu, depois escrevendo-o na areia, onde até hoje permanece)” no Oriente Médio, e como “O Papa que MUgia” entre zen-budistas de todo o mundo, amigo pessoal do Atual Dalai Lama, para todo o sempre.

Também estou mais sossegado, e coisas novas estão para acontecer.

E o que eu ganho por ter lido tudo isso?

Minha eterna gratidão.

FNORD. Obrigado por manterem a lasanha no forno, estou morrendo de fome.

Abraços a todos, e boa sorte para mim e todos nessa nova vida.