Pluralidade?

13 Agosto, 2008

ao som do álbum Jardim Elétrico, dos Mutantes

Andei pensando sobre diferenças entre os seres humanos ultimamente. Uma proposta de redação do ENEM me foi passada pela escola; na folha haviam aquelas ilustrações de praxe, mostrando pessoas de cores & vestimentas bem diferentes. Quero discutir aqui alguns pontos que podemos puxar dessa imagen.

O primeiro deles é que pluralidade é inexistente. É um conceito humano, não é algo natural – pois não existe padronização na natureza, a priori (a não ser quando pensamos em DNA, mas isso não vem ao caso; estou falando de padrões mais restritivos que os definitivos). Portanto, pensar em teorias raciais ou pensar em “igualdade” é errar: as diferenças entre os seres humanos são coisas naturais, por que havemos de louvá-las ou repudiá-las?

Isso me leva ao segundo ponto: num primeiro momento, as teorias raciais foram azos para ações políticas como o nazismo, por exemplo. Agora o discurso da pluralidade tomou esse mesmo rumo; é comum vermos em propagandas publicitárias a imagem que o ENEM trouxe em sua proposta de redação. O problema é que isso é feito de forma hipócrita. Se todo mundo que investe nesse tipo de propaganda realmente acreditasse no valor da pluralidade, eu não criticaria, mas nós vivemos, ainda que vocês não queiram reconhecer, numa sociedade preconceituosa. Vou dar-lhes exemplos: os garotos que queimaram o descendente de indígena, o evangélico que matou o ateu em uma discussão num bar (ainda que, nesse caso, ambos possam sofrer de preconceito), a Igreja KKKatólica, bem como muitos de seus seguidores, que desclassificam o movimento GLS com discursos vagos baseados numa entidade divina inexistente e seu monte de papel impresso chamado de “livro sagrado”. O preconceito contra os negros quando você muda de calçada imaginando que o moleque que vem em sua direção possa encanar contigo.

Terceiro ponto, que se liga diretamente ao segundo: pluralidade tende a ser banida. As mesmas empresas que “reconhecem” as diferenças entre os seres humanos, cujo discurso postula isso como algo verdadeiro e bom, essas empresas colocam uniformes (como já disse aqui nesse blog, uniform = única forma, ou seja, os funcionários são reduzidos à uma única forma, padronizados) em seus funcionários. Parece ser algo pequeno, é claro. Mas não é. Se a sociedade reconhecesse a pluralidade, enxergaria que o uniforme é algo restritivo, e já está enfiado no inconsciente coletivo. É prejudicial. É o sinal da submissão cultural e ideológica diante do capital. E, enfim, não é hipocrisia louvar a diversidade cultural e étnica nas festas onde isso for possível, e no cotidiano não aplicar isso, de maneira alguma, e, aliás, restringir isso ao máximo?