ao som do álbum The Wall, do Pink Floyd

Outro dia o Cachaça me pediu pra que eu tivesse um diálogo comigo mesmo sobre alguns itens. Ele não explicou muito bem o motivo, mas como isso significa mais uma postagem… Aí vai.

Cultura

A cultura é multifacetada. Existe a cultura popular, a cultura dita erudita, a cultura das “massas” (não como macarrão e pizza, mas também a deles), a cultura inútil, contra-cultura, e a tal da identidade cultural, que já levou – e ainda leva – à xenofobia. Cultura é, portanto, um fenômeno intrísceco ao ser humano, que varia de classe social para classe social e de regiões geográficas para regiões geográficas.

Esse elemento é parte fundamental do ser humano, pois é por ele que ele se expressa, seja lá o que se pretende dizer com essa frase batida. Geralmente, o único uso real da cultura é a idenficação. Isso significa que nós ou nos identificamos com determinada manifestação musical, cinematográfica, literária, etc., mas também significa que ela é referencial. Isso fica claro nas intertextualidades de todos os níveis: quando uma garota cita uma música de massa no seu perfil do Orkut, quando o modernista retoma um poema romântico e destrói a visão anacrônica sustentada por ele.

Cultura – em especial aquela que se denomina contra-cultura e outros movimentos que não têm grande visibilidade – tem um caráter contestatório. Como o ser humano é (a priori) um ser pensante, ele sempre contradiz sua visão anterior, pois é possível uma miríade de visões ímpares sobre o mesmo assunto, como também é possível ter certezas infindáveis sobre cada uma delas em momentos diferentes. Dessa forma, ela também é mutante, orgânica, “viva”.

O valor dela está baseado não só no seu acúmulo, mas na sua contestação e mudança, mas não perdemos perder de vista de que tudo não passa de ideais diferentes, não mais evoluídos. E nossa cultura está baseada na comunicação, que tem um problema evidente…

Comunicação
(e um problema evidente)

Não vou entrar em teorias da comunicação que a gente vê em aulas de redação, por exemplo, pois acho isso um saco. E todo mundo já conhece. Quem não conhece, pode dar uma olhada aqui.

Vou direto pro problema, que é interessante. Já ouviram falar de cacofonia, eu imagino. É quando, por exemplo, dizemos “vou-me já” e parece que dissemos “vou mijar”. Esse problema evidente da comunicação causa não só desentendimentos & discórdias célebres, mas também a idéia, em nós, de que a linha entre o que queremos dizer e o que de fato damos a entender é tênue. Isso me leva a pensar que muita informação errônea acaba caindo na rede de informações – e quantas delas não causam prejuízos financeiros e humanos enormes? Como quando dizemos seis e o outro entende três: e isso for feito num cálculo de uma estrutura civil? Gente vai morrer com a queda do edifício?

Ruído

Creio que, com ruído, Cachaça tenha proposto a idéia acima. Mas o ruído também pode ser entendido como outra coisa. Pode ser o ruído proposital, o ruído que a contra-cultura causa, o ruído da crítica assimilada por outra pessoa, da indignação de um funcionário chinês que acabou de ler algum livro considerado subversivo por seu governo, o ruído dos imigrantes ilegais nos Estados Unidos, o ruído que incomoda, que causa, que transforma, que destrói.

Ruído é uma importante ferramenta, e vou usar de uma analogia aqui. Imaginem uma estação de rádio das grandes, das potentes, das de massa. A interferência que uma pessoa com um pouco de conhecimento de eletrônica pode causar nessa emissora. As possibilidades de mindfuck que isso tem.

Ruído, em suas acepções atuais, tem uma potencialidade enorme, que permite usar a mídia clandestinamente, interferindo na sua mensagem, podendo até invertê-la. Algo semelhante é proposto pela…

Culture Jamming (Intervenção Cultural)

, que propõe algo interessantíssimo. Intervenções em anúncios publicitários in loco, ou ainda a paródia destes, muitas vezes não sendo visível no primeiro olhar; é uma tática subversiva altamente exigente e com impactos culturais enormes. Exigente, pois necessita de idéias boas e visão de marketing, até, por parte do interventor. Com impactos enormes, pois, quando percebida, principalmente quando causa uma sensação de humor, funciona melhor do que todos os discursos críticos do mundo.

Aliás, humor é algo importante em toda a ativdade subversiva. A idéia da subversão é quebrar com as regras impostas, pois elas são desgastantes, chatas. Portanto, o meio que deve-se atuar – não que isso seja regra, mas um meio com uma possibilidade forte – é o do humor.

Humor geralmente é destrutivo. Reduzir uma propaganda de uma grande empresa de modo inteligente a algo que pessoas riam quando olhem é a melhor forma de criticar e receber apoio. Quando a idéia é assimilada, ela entra até mesmo para a cultura popular, ou pelo menos em algum meio cultural. Um exemplo que não configura exatamente a intervenção cultural, mas exemplifica o humor de forma enorme, é a redução a EMO que Hitler passa na internet. Alguém que é um assassino, que deveria ser temido, foi reduzido a uma moça que choramingava pelos cantos e cantava músicas depressivas idiotas (nota: devo ter esteriotipado a “cultura” EMO, mas como no caso a imagem que se faz de Hitler EMO é justamente a esteriotipada, e por isso funciona como crítica, o recado foi dado). Salvo os adolescentes que louvam a figura de Hitler sem ter idéia de quem o sujeito era, esse recurso do humor funciona de modo que deveria inspirar a mais culture jamming, especialmente entre um povo “como o nosso”, que gosta tanto de rir (não que isso seja ruim, pelo contário).

Dialética

Dialética me lembra Hegel, e, portanto, me nego a me estender demais sobre o assunto. É um método interessante, principalmente pelo fato de possuir raízes na filosofia antiga, mas não me atrái muito, não. Pode ser que algum dia eu mude de idéia sobre o legado de Hegel e a pessoa dele, mas isso é, por enquanto, impossível.

A oposição de idéias proposta é interessantes, mas não deixa de ser pobre.

Auto-subversão

É uma aplicação interessante da dialética, num primeiro olhar. Veja: você defende uma idéia, então subverte a si mesmo de um modo qualquer, chegando, assim, à uma idéia nova, talvez. Nem sempre funciona, mas é um bom mindfuck. Se os outros não fazem isso por você, faça você mesmo.

Não tenho muito a declarar sobre isso, a não ser que é uma ferramenta que deve ser tratada com cuidado. Mudar constantemente de posição – como fazem alguns intelectualóides brasileiros, para se esconder das críticas – pode ser pior que não sustentar bandeira alguma. A homogeneidade do discurso não é importante, mas também não pode ser jogada na merda.

Semiótica

Segundo a Wikipédia, semiótica é o estudo dos fenômenos culturas como se fossem signos, e dos signos, símbolos em geral. Eu adoro símbolos. Sempre estou criando/interpretando/pesquisando novas simbologias, pois é uma área básica pra quem escreve ou procura escrever. Símbolos revelam muito sobre a comunicação, a linguagem, a estética, a cultura. Símbolos podem ser subvertidos – e parte dos culture jamming ocorre dessa forma. Símbolos podem ser interpretados de diversas maneiras, criando, a partir de uma mesma imagem ou texto diversas significações – pensadas ou não – e símbolos estão no imaginário cultural há muito tempo.

O ato de fotografar, por exemplo, é praticamente baseado nos símbolos, ou pelo menos é CHEIO deles. Quando o Kevin ganhou o Pulitzer com sua famosa foto, ela estava carregada de símbolos que nos permitiram identificar não só a temática, como aferir idéias, como nos indignar, como pensar em como foi tirar aquela foto, etc. Isso fez com que a foto tenha ganhado o prêmio. O ser humano é fascinado po símbolos, e isso é evidente. Empresas possuem logos, magistas fazem sigilos, grupos políticos/terroristas/subversivos/culturais & até mesmo isso que chama-se, por aí, de “tribos urbanas” (eu prefiro minha própria denominação, “gente com roupa parecida”), todo mundo usa-se de símbolos.

A semiótica domina, portanto, essas significações, e possui um poder psicológico e cultural muito grande, devendo, portanto, ser compreendida, ainda que de modo subjetivo. Falando em subjetividade…

Subjetividade

Outro assunto que me fascina. À semelhança dos símbolos, a subjetividade explica individualmente o ser humano, seus medos, seus desejos (que clichê), suas fixações. Ainda que a subjetividade de um possa ser estentida a outros, a que mais me interessa é aquela que diz respeito à subjetividade da verdade. A verdade é relativa, depende de nossas experiências e crenças, depende de nossa miopía ou hipermetropia diante das coisas.

O maior mérito desse reconhecimento é o conforto que isso dá, e o pior vício é o conforto. Depende da sua subjetividade.

3 Responses to “Reflexões encomendadas do rev. Beraldo”

  1. Emanuele Says:

    Muito bom, gostei do que li…

    Discordei só de uma coisa:
    não acho que a auto-subversão implique necessariamente na mudança constante de posição…
    auto-subversão pode ser apenas agir de encontro àquilo que você deseja.
    É como se você desafiasse suas próprias vontades pra ver se elas realmente são de sua essência ou se são impostas de alguma maneira.
    ou tô enganada?

  2. Rev. Beraldo Says:

    Sua idéia sobre auto-subversão é boa, muito boa, pena que eu nÀo pensei nesse aspecto. =)

  3. Schneider Says:

    Você deve ir à Oktoberfest!


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