Castelo de Areia Perdido no Tempo
7 Novembro, 2008
O ruído dos ponteiros mostra que o tempo está se perdendo dentro da metodologia do relógio, que insiste em nos alertar que estamos constantemente atrasados. Para a vida.
Perde-se hora para o próprio nascimento, quando deste é incomensurável e notável a identificação e o autoconhecimento e suas respectivas metas enquanto o tempo for tempo.
De uma maneira totalmente particular, o nascimento de cada consciência pode tardar a ponto de o tempo tornar-se irreversível; ao mesmo tempo pode haver um distúrbio de emoções quando do descobrimento dessa consciência em um momento em que sentimentos não são mais importantes, porém equalizam a racionalidade, de modo a poder inibir a ação.
O amor é a maior tortura, uma vez que há punição caso não seja correspondido como o exigido. Neste caso, funciona como um castelo de areia; e ao mesmo tempo em que pode ser aproveitado ao máximo dentro do período que o próprio tempo conceber, pode ser levado por qualquer maré e desmanchar a resistência conservadora dos grãos que a compõe, flexibilizando a estrutura, integrando-a à sua liberdade.
Amor
17 Julho, 2008
Estava eu discutindo as aventuras & desventuras, encontro & desencontros, felicidades & infelicidades que permeiam nossa vida amorosa com um colega, Lucas, enquanto apreciávamos um doce feito de açaí, e logo ele começou a viajar e ter idéias sobre o quão próximo está o amor do doce de açaí. Pegamos a idéia, demos uma melhorada, acrescentei o meu jeito de escrever, e restou um texto que nada tem a ver com essa cabala, mas que o Lucas queria ver aqui.
Bom, já que querem, lá vai.
O amor é como um açaí
Quem já comeu a divina pasta feita de açaí, quem já recebeu ela em casa me seu potinho de isopor contendo o delicioso doce, gelado, perfeito, sabe qual é a alegria de dar a primeira colherada, quando ainda nem se misturou complementos no doce (como banana ou cereais, ou mel, etc.). O amor é assim: quando mal conhecemos nosso parceiro, quando damos nosso primeiro beijo, sem “complementos”, inocentemente, eis a parte mais fantasticamente fantástica da coisa.
Com toda a certeza as próximas colheradas no doce, agora com nossos complementos, serão sem igual, deliciosas: novas coisas são descobertas, como quando, num relacionamento, nós descobrimos novos pequenos prazeres na mente e corpo alheios, numa profusão orgástica de delícias.
O tempo que se demora para comer o açaí também deve ser levado em conta. Quando se come muito rapidamente, o doce perde a “magia”, bem como o amor que acaba rápido demais torna-se sem graça, sem suspense. Comendo-se o divino doce muito devagar, ele derrete, torna-se monótono, aguado, bem como o amor que não evolui num ritmo mediano se dilui em imaginações de coisas que nunca virão a ser feitas.
Saber apreciar o amor como se aprecia a gelada pasta feita de açaí, eis o segredo que todo o Homem Iluminado aprende. O açaí, invariavelmente, acaba por tornar-se aguado, uma hora ou outra, no fim, quando se dá a última raspada no recipiente, em busca de esperanças adocicadas, da felicidade das adiposidades da carne. A última colherada sempre será dada em algum momento, bem como o amor sempre acaba (ou, como diria o Renato Russo, “o pra sempre sempre acaba”), e saber viver o tempo entre o início e o fim com primazia é coisa de Homens Santos.
