A Falsa Dualidade

17 Dezembro, 2008

Estou transcrevendo a minha redação para o tema do vestibular da UNESP, feita no ano de 3174 YOLD; o tema era O HOMEM: INIMIGO DO PLANETA?

“O homem é o lobo do homem.” Frases como estas, arquétipos, slogans, são o que pode se chamar de “memes”: expressões que tornam-se comuns e espalham-se pelo mundo de forma vertiginosa. A derradeira máquina de memes é o marketing que, aliado à mídia e à educação, são os formadores de nossa realidade. Estas pequenas idéias que percorrem o mundo, porém, podem ser os agentes do desaparecimento da humanidade: o marketing nos faz crer em produtos e que querer possuí-los é noso desejo, e nossa mente, ocupada com memes e desejos artificiais, acaba por criar o muro do homem contra a Natureza.

As idéias anteriores alertam: nosso sistema econômico é absolutamente sustentável dentro de seus paradigmas, mas desviar os olhos do mundo e entregar-se ao mundo proposto pelo consumismo é a atitude verdadeiramente lupina no homem. A tecnologia faz dádivas surgirem ex nihilo in terra incognita, mas os recursos que a mantém estão ameaçando o futuro do (já difícil) acesso à água e comida. Assim: será o homem responsável por danos à Terra de um modo tão irracional que pode ser considerado viral a ela? Culpam-se as idéias, o consumismo, o Sistema, a educação, as empresas que poluem, mas estes não passam de um conjunto de arquétipos dignos de um novo tarot, e este só pode prever o evidente: idéias são humanas, logo a culpa é humana.

Movimentos advertem: “fechem a torneira enquanto escovam os dentes”, mas se esquecem que, no Brasil, setenta por cento da água usada é usada e poluída e atirada irresponsavelmente ao solo por grandes agricultores e para eles nada é dito, contra eles nada é feito, e mais um meme aí se cria na mente das crianças: “o futuro depende de suas pequenas ações”. Dizer que pelo menos setenta por cento dele depende dos agricultores, dizer que a grande parcela da culpa é da mídia e dos empresários, isto é subversão! Joga-se a culpa em mais um arquétipo, “humanidade”, e a consciência dos que são “inimigos do planeta” fica limpa, e os novos pecadores, uns controlados pela mídia até o cerne, estes padecem por erros alheios. Jogada velha conhecida das religiões, mas isto deve ser dito en passant.

O homem é o lobo de Gaia? Isto é um erro; deve-se conferir a natureza de lobo àqueles que a possuem, mas estes são mais que possuidores de égides: possuem espelhos acusativos e, com isto, tornam-se mártires egrégios. À custa de recursos minerais, de vidas de animais, de poluição, estes homens presentearam a todos com a tecnologia, mas, percebendo que o homem nunca precisou dela, fizeram a todos descrer no que é natural e evidente e pantou a necessidade do anti-natural em cada consciência, taxando “louco!” aquele que negasse isto como avanço. Com betoneiras e guindastes ergueu o muro psicológico e físico que aparta homem e natureza, ignorando que aquele é representação desta e, agora, com ânsias e espasmos esquizofrênicos, planeja e antegoza o dia no qual irá concretar a Natureza! Eis a doença do Capital.

Cheio de erros, eu sei. Mas é isto. Há uma idéia aí pra se pensar.

Pluralidade?

13 Agosto, 2008

ao som do álbum Jardim Elétrico, dos Mutantes

Andei pensando sobre diferenças entre os seres humanos ultimamente. Uma proposta de redação do ENEM me foi passada pela escola; na folha haviam aquelas ilustrações de praxe, mostrando pessoas de cores & vestimentas bem diferentes. Quero discutir aqui alguns pontos que podemos puxar dessa imagen.

O primeiro deles é que pluralidade é inexistente. É um conceito humano, não é algo natural – pois não existe padronização na natureza, a priori (a não ser quando pensamos em DNA, mas isso não vem ao caso; estou falando de padrões mais restritivos que os definitivos). Portanto, pensar em teorias raciais ou pensar em “igualdade” é errar: as diferenças entre os seres humanos são coisas naturais, por que havemos de louvá-las ou repudiá-las?

Isso me leva ao segundo ponto: num primeiro momento, as teorias raciais foram azos para ações políticas como o nazismo, por exemplo. Agora o discurso da pluralidade tomou esse mesmo rumo; é comum vermos em propagandas publicitárias a imagem que o ENEM trouxe em sua proposta de redação. O problema é que isso é feito de forma hipócrita. Se todo mundo que investe nesse tipo de propaganda realmente acreditasse no valor da pluralidade, eu não criticaria, mas nós vivemos, ainda que vocês não queiram reconhecer, numa sociedade preconceituosa. Vou dar-lhes exemplos: os garotos que queimaram o descendente de indígena, o evangélico que matou o ateu em uma discussão num bar (ainda que, nesse caso, ambos possam sofrer de preconceito), a Igreja KKKatólica, bem como muitos de seus seguidores, que desclassificam o movimento GLS com discursos vagos baseados numa entidade divina inexistente e seu monte de papel impresso chamado de “livro sagrado”. O preconceito contra os negros quando você muda de calçada imaginando que o moleque que vem em sua direção possa encanar contigo.

Terceiro ponto, que se liga diretamente ao segundo: pluralidade tende a ser banida. As mesmas empresas que “reconhecem” as diferenças entre os seres humanos, cujo discurso postula isso como algo verdadeiro e bom, essas empresas colocam uniformes (como já disse aqui nesse blog, uniform = única forma, ou seja, os funcionários são reduzidos à uma única forma, padronizados) em seus funcionários. Parece ser algo pequeno, é claro. Mas não é. Se a sociedade reconhecesse a pluralidade, enxergaria que o uniforme é algo restritivo, e já está enfiado no inconsciente coletivo. É prejudicial. É o sinal da submissão cultural e ideológica diante do capital. E, enfim, não é hipocrisia louvar a diversidade cultural e étnica nas festas onde isso for possível, e no cotidiano não aplicar isso, de maneira alguma, e, aliás, restringir isso ao máximo?