Ideologias e Ação
2 Outubro, 2008
ao som do álbum The Hour Glass, da Allman Brothers Band
Uma ideologia¹ é um produto cultural – antes dela ser delineada, certas visões artísticas e filosóficas devem ser conhecidas por todos aqueles que, posteriormente, irão compartilhar dessa ideologia. Ao mesmo tempo que pode ser resultado da cultura, pode ser da contracultura e (como é comum e, cada vez mais evidente), das duas. Porém, há um problema que quem segue uma ideologia quase sempre sofre: comodidade.
No que uma ideologia difere de uma religião?
Ideologia possui um embasamento “científico” – no sentido de que há uma teoria por trás dela, falando de um modo geral. Porém, parte (e uma parte muito grande) do que uma ideologia carrega são, no fundo, crenças, devaneios. E há algo pior: o culto da imagem de um homem-símbolo desse ideário, que chega a ser um “salvador”. As pessoas, geralmente, se espelham no que fez este homem, buscam conhecer histórias sobre ele, gozam com sua astúcia. Quando estas ações são grandes, acabam por gerar megalomania naquele que segue a ideologia; a pessoa, inspirada a agir, pensa em egrégios atos que serão eternizadas, e acaba por não agir. Num outro caso, ainda, gozam com o que seu herói fez e acabam por sentir que “o mundo não está perdido”, além da sensação de “trabalho cumprido” que anima o ser, acalma as idéias e ceifa as possibilidades de ação.
A beleza dos pequenos atos
Para agir – principalmente espelhado no herói de sua ideologia – deve-se ter em mente duas coisas: atos pequenos e simples são os melhores, pois são possíveis e acabam por atrair mais gente interessada E para fazer atos grandiosos, precisa-se de gente interessada, apoio, de modo que um ato grandioso pressupõe diversos atos pequenos anteriores.
A falta de ação é diretamente proporcional à falta de recusos de maturidade. Falta de recursos é superada com a arte da gambiarra – o que nos permite planos menos elaborados, mas ao menos nos permite algo – e a imaturidade só é superada com a experiência – o que nos leva, novamente, ao “aja o quantos antes!”. Um artista não o é, pois sempre sonhou ser, mas simplesmente porque é, porque age como um. A partir do momento que algo é feito, então algo é feito, e essa é a beleza que existe naquilo que se faz, seja algo pequeno ou grande. Arraigar pessoas por meio do discurso é relativamente simples, mas elas não vão agir por você ou pela ideologia apenas com o apoio teórico: só serÃo livres para agir após alguém agir com elas. Claramente, há pessoas que abraçam a teoria e a aplicam sozinhas, mas essas pessoas devem fazer com que aquelas que desconhecem a prática se habituem a ela. Que aqui não fique subintendida a noção clássica de “líder”. Existe, claro, uma liderança natural em algumas pessoas, mas ela é simplesmente a facilidade de praticar o que as ideologias propõe. Quando, porém, esse líder “capacita” mais pessoas a agir e a serem novos líderes, toda a diferença existente entre aquele que liderou os seus pupilos some; liderança é e deve ser tratada como viral, portanto, de modo que nenhuma estrutura hierárquica se forme.
Mas… isso tudo não é uma ideologia?
O que escrevi até agora é bem teórico, mas teoria é necessária. O primeiro e mais evidente viés do texto é incitar os “líderes natos” a agir; o segundo, é mostrar àqueles que não levantam suas bundas gordas os motivos disso: eles praticamente professam uma religião, com direito a crenças e um salvador! Uma afirmação empírica: pode ser que os teóricos, os que carecem de ação, após confrontados com os motivos disso, ou seja, serem religiosos megalomaníacos, resolvam botar em prátic o mindfuck-de-cada-dia (ou qualquer outra idéia de sua ideologia) e participarem desta enorme, anônima e corrosiva conspiração contra os aspectos sérios, irritantes, burocráticos, perigosos, enfim, de nosso mundo.
Não consigo agir! E agora?
Ari Almeida nos deixou uma grande lição: o real é aquilo que você crê. Sera que suas ações na fria cidade de Curitiba de fato aconteceram? Isso é irrelavante, como nos ensina o discordianismo; Ari disse para um número enorme de pessoas que fez, e isso influenciou um número maior delas do que teria influenciado se esses atos fossem reais, mas não divulgados. Arrisco dizer que as idéias do seu Manual Prático de Delinqüência Juvenil foram, diversas vezes, postas em prática por outras pessoas, e isso é o que vale a pena. Portanto, se você não consegue fazer, minta; espalhe desinformações e influencie muita gente com histórias fascinantes. Ou, no mínimo, divulgue a uma pessoa por dia o Manual, poste-o num fórum, imprima um conto, tire cópias, e jogue por aí.
De novo… a cultura.
Enfim, algo importante a ser comentado: para agir, precisamos ter coragem e mente aberta. Por exemplo, para fazer algo ilegal, primeiro há o reconhecimento de que a lei não é benéfica, a não ser para aqueles que a criam (eu posso apresentar argumentos contrário, como, por exemplo, as leis de trânsito (a maioria delas), mas estou falando de leis que meraçam ser questionadas), e, então, reconhecendo que “respeitar a lei” pode ser cercear suas liberdades pessoais, e só então é que a quebra da lei ocorre. Há um longo processo de entendimento e questionamento das convenções, estas que são sempre alvo da cultura; “ter cultura” é importante para nos ajudar a questionar, entender e criar coragem para fazer algo. Muitas vezes, é da cultura em geral, de qualquer nível, que tiramos inspiração para o que quer que façamos.
¹O sentido de “ideologia” que eu usei ao longo desse texto não se aproxima, em absoluto, do conceito marxista. Significa, porém, muito mais “visão de mundo”, e é o conjunto de idéias que ajudam a definir o mundo e como nos relacionamos com ele. Portanto, nesse sentido da palavra, o próprio marxismo é uma ideologia.Reflexões encomendadas do rev. Beraldo
3 Setembro, 2008
ao som do álbum The Wall, do Pink Floyd
Outro dia o Cachaça me pediu pra que eu tivesse um diálogo comigo mesmo sobre alguns itens. Ele não explicou muito bem o motivo, mas como isso significa mais uma postagem… Aí vai.
Cultura
A cultura é multifacetada. Existe a cultura popular, a cultura dita erudita, a cultura das “massas” (não como macarrão e pizza, mas também a deles), a cultura inútil, contra-cultura, e a tal da identidade cultural, que já levou – e ainda leva – à xenofobia. Cultura é, portanto, um fenômeno intrísceco ao ser humano, que varia de classe social para classe social e de regiões geográficas para regiões geográficas.
Esse elemento é parte fundamental do ser humano, pois é por ele que ele se expressa, seja lá o que se pretende dizer com essa frase batida. Geralmente, o único uso real da cultura é a idenficação. Isso significa que nós ou nos identificamos com determinada manifestação musical, cinematográfica, literária, etc., mas também significa que ela é referencial. Isso fica claro nas intertextualidades de todos os níveis: quando uma garota cita uma música de massa no seu perfil do Orkut, quando o modernista retoma um poema romântico e destrói a visão anacrônica sustentada por ele.
Cultura – em especial aquela que se denomina contra-cultura e outros movimentos que não têm grande visibilidade – tem um caráter contestatório. Como o ser humano é (a priori) um ser pensante, ele sempre contradiz sua visão anterior, pois é possível uma miríade de visões ímpares sobre o mesmo assunto, como também é possível ter certezas infindáveis sobre cada uma delas em momentos diferentes. Dessa forma, ela também é mutante, orgânica, “viva”.
O valor dela está baseado não só no seu acúmulo, mas na sua contestação e mudança, mas não perdemos perder de vista de que tudo não passa de ideais diferentes, não mais evoluídos. E nossa cultura está baseada na comunicação, que tem um problema evidente…
Comunicação
(e um problema evidente)
Não vou entrar em teorias da comunicação que a gente vê em aulas de redação, por exemplo, pois acho isso um saco. E todo mundo já conhece. Quem não conhece, pode dar uma olhada aqui.
Vou direto pro problema, que é interessante. Já ouviram falar de cacofonia, eu imagino. É quando, por exemplo, dizemos “vou-me já” e parece que dissemos “vou mijar”. Esse problema evidente da comunicação causa não só desentendimentos & discórdias célebres, mas também a idéia, em nós, de que a linha entre o que queremos dizer e o que de fato damos a entender é tênue. Isso me leva a pensar que muita informação errônea acaba caindo na rede de informações – e quantas delas não causam prejuízos financeiros e humanos enormes? Como quando dizemos seis e o outro entende três: e isso for feito num cálculo de uma estrutura civil? Gente vai morrer com a queda do edifício?
Ruído
Creio que, com ruído, Cachaça tenha proposto a idéia acima. Mas o ruído também pode ser entendido como outra coisa. Pode ser o ruído proposital, o ruído que a contra-cultura causa, o ruído da crítica assimilada por outra pessoa, da indignação de um funcionário chinês que acabou de ler algum livro considerado subversivo por seu governo, o ruído dos imigrantes ilegais nos Estados Unidos, o ruído que incomoda, que causa, que transforma, que destrói.
Ruído é uma importante ferramenta, e vou usar de uma analogia aqui. Imaginem uma estação de rádio das grandes, das potentes, das de massa. A interferência que uma pessoa com um pouco de conhecimento de eletrônica pode causar nessa emissora. As possibilidades de mindfuck que isso tem.
Ruído, em suas acepções atuais, tem uma potencialidade enorme, que permite usar a mídia clandestinamente, interferindo na sua mensagem, podendo até invertê-la. Algo semelhante é proposto pela…
Culture Jamming (Intervenção Cultural)
, que propõe algo interessantíssimo. Intervenções em anúncios publicitários in loco, ou ainda a paródia destes, muitas vezes não sendo visível no primeiro olhar; é uma tática subversiva altamente exigente e com impactos culturais enormes. Exigente, pois necessita de idéias boas e visão de marketing, até, por parte do interventor. Com impactos enormes, pois, quando percebida, principalmente quando causa uma sensação de humor, funciona melhor do que todos os discursos críticos do mundo.
Aliás, humor é algo importante em toda a ativdade subversiva. A idéia da subversão é quebrar com as regras impostas, pois elas são desgastantes, chatas. Portanto, o meio que deve-se atuar – não que isso seja regra, mas um meio com uma possibilidade forte – é o do humor.
Humor geralmente é destrutivo. Reduzir uma propaganda de uma grande empresa de modo inteligente a algo que pessoas riam quando olhem é a melhor forma de criticar e receber apoio. Quando a idéia é assimilada, ela entra até mesmo para a cultura popular, ou pelo menos em algum meio cultural. Um exemplo que não configura exatamente a intervenção cultural, mas exemplifica o humor de forma enorme, é a redução a EMO que Hitler passa na internet. Alguém que é um assassino, que deveria ser temido, foi reduzido a uma moça que choramingava pelos cantos e cantava músicas depressivas idiotas (nota: devo ter esteriotipado a “cultura” EMO, mas como no caso a imagem que se faz de Hitler EMO é justamente a esteriotipada, e por isso funciona como crítica, o recado foi dado). Salvo os adolescentes que louvam a figura de Hitler sem ter idéia de quem o sujeito era, esse recurso do humor funciona de modo que deveria inspirar a mais culture jamming, especialmente entre um povo “como o nosso”, que gosta tanto de rir (não que isso seja ruim, pelo contário).
Dialética
Dialética me lembra Hegel, e, portanto, me nego a me estender demais sobre o assunto. É um método interessante, principalmente pelo fato de possuir raízes na filosofia antiga, mas não me atrái muito, não. Pode ser que algum dia eu mude de idéia sobre o legado de Hegel e a pessoa dele, mas isso é, por enquanto, impossível.
A oposição de idéias proposta é interessantes, mas não deixa de ser pobre.
Auto-subversão
É uma aplicação interessante da dialética, num primeiro olhar. Veja: você defende uma idéia, então subverte a si mesmo de um modo qualquer, chegando, assim, à uma idéia nova, talvez. Nem sempre funciona, mas é um bom mindfuck. Se os outros não fazem isso por você, faça você mesmo.
Não tenho muito a declarar sobre isso, a não ser que é uma ferramenta que deve ser tratada com cuidado. Mudar constantemente de posição – como fazem alguns intelectualóides brasileiros, para se esconder das críticas – pode ser pior que não sustentar bandeira alguma. A homogeneidade do discurso não é importante, mas também não pode ser jogada na merda.
Semiótica
Segundo a Wikipédia, semiótica é o estudo dos fenômenos culturas como se fossem signos, e dos signos, símbolos em geral. Eu adoro símbolos. Sempre estou criando/interpretando/pesquisando novas simbologias, pois é uma área básica pra quem escreve ou procura escrever. Símbolos revelam muito sobre a comunicação, a linguagem, a estética, a cultura. Símbolos podem ser subvertidos – e parte dos culture jamming ocorre dessa forma. Símbolos podem ser interpretados de diversas maneiras, criando, a partir de uma mesma imagem ou texto diversas significações – pensadas ou não – e símbolos estão no imaginário cultural há muito tempo.
O ato de fotografar, por exemplo, é praticamente baseado nos símbolos, ou pelo menos é CHEIO deles. Quando o Kevin ganhou o Pulitzer com sua famosa foto, ela estava carregada de símbolos que nos permitiram identificar não só a temática, como aferir idéias, como nos indignar, como pensar em como foi tirar aquela foto, etc. Isso fez com que a foto tenha ganhado o prêmio. O ser humano é fascinado po símbolos, e isso é evidente. Empresas possuem logos, magistas fazem sigilos, grupos políticos/terroristas/subversivos/culturais & até mesmo isso que chama-se, por aí, de “tribos urbanas” (eu prefiro minha própria denominação, “gente com roupa parecida”), todo mundo usa-se de símbolos.
A semiótica domina, portanto, essas significações, e possui um poder psicológico e cultural muito grande, devendo, portanto, ser compreendida, ainda que de modo subjetivo. Falando em subjetividade…
Subjetividade
Outro assunto que me fascina. À semelhança dos símbolos, a subjetividade explica individualmente o ser humano, seus medos, seus desejos (que clichê), suas fixações. Ainda que a subjetividade de um possa ser estentida a outros, a que mais me interessa é aquela que diz respeito à subjetividade da verdade. A verdade é relativa, depende de nossas experiências e crenças, depende de nossa miopía ou hipermetropia diante das coisas.
O maior mérito desse reconhecimento é o conforto que isso dá, e o pior vício é o conforto. Depende da sua subjetividade.
