Tudo me vem lembrar que tu fugiste,
Tudo que me rodeia, de ti fala.
Inda a almofada em que pousaste a fronte
O teu perfume predileto exala.

No piano saudoso, à tua espera,
Dormem sono de morte as harmonias.
E a valsa entreaberta mostra a frase
A doce frase que inda há pouco lias.
(Castro Alves)

Nostalgia, nostalgia… Ela resolveu atacar de novo, munida daquela força que é contrária a todo o ânimo, a toda a felicidade. Aquelas lembranças – muitas delas boas: um Natal que ficou marcado na memória, a conversa entre dois carros… – aquelas lembranças regressaram com o acréscimo de serem ainda mais antigas agora. Merencórios todos somos, quando deparamos com as recordações de há muito, e que enterradas já estavam.

Pessoas com as quais estivemos, pessoas das quais sentimos saudades, pessoas com as quais vamos estar, todas elas estão por aí, vivendo aquilo que têm, por força e por costume, de chamar de vida. Algumas sabemos onde estão; outras podemos especular, e outras, ainda, nunca vamos saber, e é preciso uma grande capacidade de abstração para imaginá-las como existentes, e não como mortas e apenas como passado; e ter consciência disso é uma condenação, principalmente quando as queremos de volta.

Há um espaço entre nós! Um espaço físico e psicológico, um espaço que dá margem às brigas, aos amores, aos medos, à convivência, enfim. Esse espaço que não permite que nos identifiquemos com todos, que não saibamos o que se passa na mente alheia, espaço que, enfim, nos condena à solitude. Separação que inquieta e faz a mente pensar nos absurdos mais poéticos e inalcançáveis: “ah, se eu pudesse viver aquele dia mais uma vez…”.

Solidão de sábado é foda.

Foto por D. [SansPretentionAucune] (•̪●)