É tudo a mesma coisa

21 maio, 2008

ao som do IV movimento da Nona Sinfonia de Ludwig van Beethoven

Hoje eu vi um cara da minha sala grudando um papel no mural (ao lado do símbolo da Igreja de Satã que eu confeccionei) da sala de aula com o escrito:

COMITIVA
Vira-Lata

Entre as palavras “vira” e “lata” uma lata e flechinhas indicando movimento. A lata deve ser de cerveja.

Quando eu perguntei pra ele se essa comitiva era um bando que se reúne pra ir em algum daqueles shows ruins que ele vai, ele respondeu afirmativamente e perguntou se os meus bandos pra ir em shows se chamavam gangues (talvez o motivo disso seja que eu use uma camiseta do Ozzy algumas vezes na escola). E acrescentou dizendo que eu gostava de ópera (não curto ópera!). Respondi “Ópera? Não curto, mas qual o motivo de dizer isso?”. “Ah, aquela música que estava escutando outro dia”, ele disse. “Aquilo era uma sinfonia. A “Choral”, do Beethoven”.

Foi quando ele me disse “Então!, é ópera.”.

Claro que é.

Está ficando recorrente eu falar sobre pessoas aqui, mas essa eu não poderia deixar passar; mais uma prova de que, no fim, é tudo a mesma coisa.

Palavrinha de hoje: beócio pode significar uma pessoa ignorante num nível inimaginável.

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Ao som da Sinfonia número nove, opus 125 em dó menor, de Ludwig van Beethoven. Quarto movimento, Presto – Allegro assai.

Há algum tempo eu estava conversando com um colega discordiano e o assunto se voltou para a “essência do discordianismo” – ou melhor, para aqueles que não a entendem. Vou me explicar: o discordianismo, num certo sentido, é um absurdo. Isso porque a meta dele é dizer para as pessoas, por meio do humor muitas vezes ácido, que elas devem “ser você mesmo”.

Não que isso seja algo novo. Todos os filmes bestas que nos rodeiam têm uma cena onde um garoto A apaixonado por uma garota B pede conselho a alguma amiga de B, geralmente a C (se o gênero do filme for “adolescentes estadunidenses” a garota C gosta de A; se for uma comédia romântica, C é besta e sem sentimentos além do “toma que dê certo”). C diz ao garoto que ele “seja você mesmo”.

Só que esta frase é, podem crer, deturpada neste contexto. Não tem o sentido que deveria ter, isto é: “se é sádico, seja sádico, se estranho, sê estranho (et cetera)”; e geralmente vem complementada pelo “haja naturalmente”. Quem é estranho pode agir naturalmente sendo ele mesmo? É algo pra se pensar. Num certo sentido não, pois o “agir naturalmente” é julgado pelos outros.

O discordianismo traz o seja você mesmo de forma oculta, muitas vezes. A quinta regra do pentbarf (ou pentarroto, na edição brasileira do Papa Ibrahim Cesar) diz que “Um Discordiano é Proibido de Acreditar Naquilo Que Lê”. Vamos analisar a implicação primeira da regra – sem nos aprofundamos nas outras leituras e atitudes que podem surgir dela. Se você não pode acreditar naquilo que lê, logo deve confrontar as informações que encontrar com suas experiências, com outras leituras, tirar a prova real. Não que todos os textos e autores sejam mentirosos em potencial – é que você pode ter sua própria visão da coisa discutida, e isso é saudável. No final, você está sendo você mesmo, isto é, não se limitando pela visão de mundo dos outros.

Há outro momento muito forte que afirma o individualismo no Principia Discordia. É o cartão de papa. “Todo homem, mulher e criança nesta Terra é um genuíno e autorizado Papa”. Se formos todos papas, o respeito deve ser mútuo, já que papas devem ser tratados bem. Isso garante que o individualismo de um não vá ferir o de outro. Complementando isso, o Grande Livro diz que A Deusa pode ter outros planos para você se sua visão do discordianismo se distanciar daquela apresentada.

O fato é que tem gente que não entendeu muito bem isso. Aliás, tem gente que não entendeu nada disso. Quando você começa a louvar Éris, a levar a sério os “mistérios eresianos”, achando que o discordianismo é uma “cultura do contra”, você pode estar enganado. Pode ser que o calendário discordiano, ou mesmo Éris não façam parte de sua subjetividade, mas aí entra outra característica da religião: o mindfuck. É algo que daria discussão enorme, por isso não vou falar nada sobre ele agora. O que quero que procurem entender é que o discordianismo não é uma religião, muito menos uma filosofia, nem uma piada – e é tudo isso ao mesmo tempo. Assim, louvar A Deusa não é algo que fará de você um discordiano, apesar de a maioria deles louvarem-na. Vejam o Black Iron Prison – é um projeto que não fica citando Éris a todo o momento. E nem por isso deixa de ser discordiano.

Ora, o conselho desta Cabala e deste Papa Reverendo é que os supostos “filhos de Éris” procurem algo que lhes sirva mais, como o neo-paganismo do Black Metal; e que achem que tudo isso de cantar sobre Thor, Odin, Loki e as Valquírias é novo, ignorando Wagner e o Anel dos Ninbelungos.