Geladeiras

4 janeiro, 2008

ao som do álbum Nervermind, do Nirvana

Há coisas que os seres humanos têm em comum que destroem qualquer classificação, qualquer rótulo que possamos ter. Sentimentos são assim; você os tem independentemente da classe, do estereótipo, do grupo, da música que ouve etc.. Outra delas é o hábito de abrir a geladeira e ficar contemplando o interior do eletrodoméstico, deixando seus pensamentos se desenvolver desde as garrafas da porta até o bacon no congelador.

O quão fantástico isso é? O suficiente para fazer pensar… Outro dia eu cheguei em casa e ela estava vazia – a família tinha saído – e então abri a geladeira. Fiquei uns dois minutos pondo as idéias em ordem (dia agitado, compreendem?). Alguns podem dizer: “ah, mas você tinha fome”. Eu estava procurando algo para beber, sim. Porém, não havia nada, e isso é uma constatação rápida, de modo que deveria ter fechado a porta do equipamento rapidamente; além disso, quantas vezes vocês já não fizeram isso? Qual é o motivo que nos leva a buscar a geladeira para pensar?

Algumas vezes, isso se repete à noite, em especial aquelas que antecedem algo, ou então quando a insônia nos faz uma visita. No blog do Manual Prático da Delinqüência Juvenil tem um poema sobre tudo isso:

A geladeira

Domingo ela abriu a geladeira 119 vezes…

mas, não saiu ninguém.

Um blogueiro certa vez disse que os travesseiros são catalisadores de idéias. O que são, então, as geladeiras? Divãs frios? Um tipo de confessionário nada cristianizado, psicólogos com prateleiras; as geladeiras têm a difícil tarefa de compartilhar de nossos sentimentos. Fato é que comer alivia um pouco os problemas. Mas, isso acaba com todo o mistério. Vamos até a máquina buscando reconforto alimentar; enquanto nos decidimos sobre o que comer, pensamos, e acabamos divagando e encarando o interior frio por sabe-se lá quanto tempo. O mais intrigante, porém, não foi dito ainda.

Quando estamos realmente encanados, recorremos à geladeira diversas vezes. Ainda que saibamos que não há nada lá, mas ainda assim abrimos a porta, olhamos, pensamos, e a fechamos aturdidos. Tão absurdo quanto isso é que, quando estamos procurando por algo, acabamos por vezes abrindo a porta da geladeira e procurando ali. Esses instintos que possuímos são tão fortes que nos levam a recorrer à comida num número tão grande de ocorrências, quando nos preocupamos? Apenas os mais bem adaptados vencem. É, ponto para a biologia. Ou então, esse “recorrer à geladeira” pode dar uma pequena idéia de como nosso pensamento é caótico, desordenado. Se não o fosse, por que outro motivo esses problemas nos levam a uma condição tal que buscamos qualquer coisa do prazer de comer? Pensamento racional – isso é puro “ha-ha” daqueles que cultuam a intelectualidade, a “cultura”, os assuntos importantes. Viva a inconstância caótica!, e viva a geladeira (e me desculpe, camada de ozônio).

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