Conhece o Mário?

23 fevereiro, 2008

Ao som do álbum The Division Bell, do Pink Floyd

Mário Quintana explodiu o ego em zilhões de pedacinhos quando disse que “uma definição apenas define os definidores”. Deu uns tapadas na cara do velho Choronzon, pode acreditar. Definições são reflexos das verdades que cada um de nós carrega – tijolos que constituem as muralhas do ego. Mas, nunca, definições são Verdadeiras, no sentido amplo da palavra com o “V” maiúsculo, pois são as visões de pessoas, grupos, religiões, etc., e não a coisa-em-si. Voltando ao Mário, o cara foi discordianista quando disse aquilo; comparem com o que diz o Principia Discordia (e se preparem pra um pouco de psico-metafísica):

“Nós olhamos para o mundo através de janelas nas quais foram desenhadas grades (conceitos). Filosofias diferentes usam grades diferentes. Uma cultura é um grupo de pessoas com grades bastante similares. Através de uma janela nós vemos caos, e relacionamo-lo aos pontos na nossa grade, e assim o entendemos.”

(Principia Discordia, páginas 00049 e 00050)

Definições, conceitos ou grades são quase a mesma coisa, num certo sentido, que é o que estamos analisando. E esses tais de preconceitos? Ora, são pré-conceitos: conceitos, ou definições, ou ainda grades, que se sustentam em… Nada! Não são validados por hipótese ou fato algum; em suma, podem ser chamados, em primeira análise, de crenças. Juntemos os fatores: a citação do Mário, do Principia, e o que pensei sobre preconceitos. Essas coisas são eventos formadores do ego, do eu (não levem muito pro lado freudiano, mas sim pensem no significado da palavra latina ego, que em verdade significa “eu”). Esse ego é nosso modo de ver, pensar e agir sobre o mundo exterior, ou o que imaginamos ser o mundo exterior: algo como a caverna do Sócrates, mas mais cruel.

Eu venho lendo e refletindo sobre algumas coisas relacionadas à desagregação do ego, algo que é extremamente interessante. Primeiro, porque é um auto-exame moral, filosófico e cultural. Depois, pois esse exame geralmente leva a conhecer as coisas ruins e boas sobre nós mesmos. O diferencial é que a real desagregação do ego se dá pela perda da moral, da identidade cultural e religiosa (ou irreligiosa), da visão de todas as possibilidades e o reconhecimento que todas são reais, falsas e absurdas. E não tenho certeza até onde isso é interessante, mas experiência pessoal é sempre interessante. Conhecer a si mesmo, como sugeria o oráculo da ilha de Delfos, exige escolher, e para isso, analisar o que se tem, e criar algo novo se não houver nada com que se identifique.

O Mário me ajudou a descer um nível mais, e espero que instigue vocês.