Humanidade po Pasto

11 novembro, 2007

ao som da Sonata “Ao Luar”, No. 14 em Dó Sustenido Menor, Opus 27, No. 2 de Beethoven

Queria discorrer sobre a humanidade, então recorri ao po. Pasto é o que surgiu diante de mim quando recorri à página 153, primeiro substantivo após a 23a palavra do capítulo 72 das Memórias Póstumas de Brás Cubas. Nenhum livro melhor para consultar quando o assunto é o ser humano.

Pasto sugere bois, ovelhas. Somos, de fato, apascentados por um sistema, muitas vezes cruelmente castigados por fugirmos da conduta do bando. Nossa ovelhada, conduzida por verdadeiros pastores (ironicamente, alguns até recebem este título), farta de se deleitar no capim barato, farta de seguir ordens que parecem vir de acéfalos, é conduzida numa lógica ridícula.

Ora, inegavelmente esse sistema é falho. Afinal, se o projetarmos ad infinito, verifica-se que os recursos naturais que sustentam a produção são escassos e esse argumento basta para quebrar toda a lógica da coisa, que é produzir mais (o que necessita dos recursos limitados) em menos tempo (o que diminui o tempo, também, da disponibilidade dos recursos).

Ah, mas isso é sabido por todos, ao menos todos aqueles que constituem o público-alvo da Cabala. Vamos atacar de maneira discordiana, agora…

O sistema, ou seja, o conjunto de códigos, leis, normas, é algo sistematizado. Sistematizar é normalizar, tornar normal, organizado, padronizado, uniformizado. O sistema, então, reduz os seres humanos ao estado de uni(ca)form(a), dessa forma conseguindo um maior controle sobre as coisas produzidas por estes seres, uma maior eficiência. Mas, a que custo? Ao custo da singularidade de cada um, e, portanto, da pluralidade da humanidade. Isso causa danos severos, pois aqueles que negam vestir o uniforme para servirem o sistema são vítimas de preconceito e rótulos.

Analise pela palavra: “pré-conceito” remete a algo pré-formado, pré-concebido, estabelecido. Exatamente como padrões, que são previsões de como as coisas devem ser para que estejam “corretas”, na ótica do sistema. Alguém que não se encaixa nisso já está previamente julgado pelo sistema; assim, alguém anti-social, retraído, esquisito, é vítima de preconceito e rotulações.

Justamente por negarem sua paridade com o sistema são marginalizados. Anônimos de outrora que hoje são famosos (ainda que em segmentos marginalizados da sociedade) como H. P. Lovecraft, que, em sua época, não teve quase nenhuma representatividade.

Ainda sobre a normalização: organizar é ir contra a entropia natural das coisas. É negar o caos. Nosso universo começou com uma baixa entropia, ou seja, muito “organizado”. A tendência é, obviamente, se desorganizar; ao contrário disso, tentamos ir contra o sentido natural das coisas. E admitam, isso é um erro.

E que ligação tudo isso tem com o pasto? O pasto é o cenário onde ocorre a normalização, sendo o pastor o agente normalizador, e o rebanho os normalizados. As “ovelhas negras” são, em sua maioria, os discordianos, os artistas marginalizados, os revolucionários. O pascigo é, ainda, o alimento e os recursos do sistema, que são escassos. Nessa lógica, os pastores (novamente, uma ironia) são os culpados pela má utilização do pasto, e, mais, pelas desilusões do rebanho e as dores dos marginalizados.

A humanidade e seu pasto estão num rumo doentio. Felizmente, temos o contrapeso do discordianismo, que nos permite ver as coisas de um prisma deveras interessante. Por isso, perpetuemos as críticas!

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