Sim, nós podemos! #3

23 dezembro, 2007

 ao som do disco A Saucerful of Secrets, do Pink Floyd

Nos últimos dois posts eu discuti o controle da informação e os meios de aliviar este controle. Finalmente, chegamos ao final da série, onde vou discutir um pouco das alternativas ilegais de distribuição da informação, preferindo me deter a um exemplo, que é o Coletivo Sabotagem. Antes, porém, tenho que dar uma pincelada em copyleft.

O Coletivo Wu Ming , um grupo francês, criou o conceito de copyleft, que é uma alternativa bastante interessante para o copyright. Esse dispositivo legal permite aos autores que publiquem de forma que qualquer pessoa possa ter contato com elas sem pagar nada por isso. Os livros publicados pelo coletivo levam os dizeres: “É permitida a reprodução, parcial ou total, da obra e a sua difusão por via telemática para uso pessoal dos leitores, desde que não com finalidade comercial”. Mas, como os escritores podem sobreviver se distribuem seus livros gratuitamente? Para este argumento há uma resposta dada no livro “Copyleft explicado às crianças”, que pode ser resumida em: “quando algum piá pega um de nossos livros gratuitamente, lê, e gosta, pode vir a presentear alguém, e não vai fazê-lo com um link ou um monte de folhas A4 impressas. Ao invés disso, ele compra o livro. Uma cópia pirateada=uma cópia vendida, o que quebra com a lógica antiga de que uma cópia pirateada era uma a menos vendida. Além disso, se ele gostou do livro, pode indicá-lo a mais pessoas, que podem acabar comprando-o. E, se não gostar, não gastou um tostão com isso”.

Porém, os livros que já estão sob o domínio editorial de alguma empresa dificilmente irão ser disponibilizados nesse tipo de licença, pois as empresas ainda estão avessas a essa inovação legal. Dessa forma, o trabalho de grupos como o Coletivo Sabotagem assume importância na distribuição da informação. O site possui um vasto acervo de livros protegidos pela lei do copyright para download, além de incentivar a distribuição destes livros digitalizados em outros sites e blogs, e ensinar e dar as ferramentas necessárias para a criação de projetos parecidos ao do Coletivo Sabotagem.

O conceito é basicamente este: quebrar a lei voluntariamente e incentivar outras pessoas que façam o mesmo, sob a bandeira de “conhecimento não se compra, se toma”. E é mais eficiente que os outros. Não cabe a ninguém fazer juízo de valor à proposta do Coletivo, e eu devo dizer que sou bem positivo à idéia. A atitude é, obviamente, subversiva para o Estado e para as empresas detentoras dos direitos autorais dos livros ali disponíveis representa perigo e prejuízo.

Aquilo que o Coletivo faz é minimamente justificável, penso, pois o conhecimento dominado pelas empresas é merecedor do mesmo tratamento do conhecimento publicado com copyleft, por exemplo.

Bom, acho que perceberam que o Wu Ming era um assunto que cabia muito bem no segundo post dessa série. Há bastante coisas para se discutir acerca o grupo francês, mas não vou fazer isso. Deixo vocês, porém, com o livro “Copyleft explicado às crianças”: http://sabotagem.revolt.org/sites/sabotagem/files/Copyleft_para_criancas_-_Wu_Ming.pdf

E, como prometido, com o artigo que deu origem a esta série de postagens: http://sabotagem.revolt.org/sites/sabotagem/files/pirataria_ou_resist%C3%AAncia.pdf

E fecho aqui esta série.

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Sim, nós podemos! #2

7 dezembro, 2007

ao som do disco Sociedade Da Grã Ordem Cavernista, do Raul Seixas

Este é o segundo post da série “Sim, nós podemos!” (o nome é meio bobo, eu sei), que versa sobre o controle da informação e formas de hackerar desse controle. Desta vez vamos discutir o modo legal de contornar o monopólio da informação, e, principalmente, a desfiguração que sofrem determinados fatos.

Existe na internet, e muitos dos leitores devem conhecer, um tal Centro de Mídia Independente (CMI – http://www.midiaindependente.org/), feito pelos visitantes e contribuintes, que podem postar, por exemplo, vídeos, fotos, notícias, artigos, resenhas. Funciona? Bom, a Wikipédia funciona muitíssimo bem e, a priori, da mesma forma que o CMI. É confiável? A Veja é confiável? O Estado de São Paulo é? Não existe exatidão e imparcialidade em se tratando de jornalismo, seja ele profissional ou amador. A diferença, é que a visão parcial do Centro de Mídia Independente é a das classes desfavorecidas menos favorecidas, ou pelo menos não é a visão imperialista empresarial.

Utilizando-se dessa ferramenta, podemos dar uma visão alternativa para um público considerável que visita o site. O mais importante: é um Centro de Mídia Independente, ou seja, desvinculado de qualquer iniciativa privada visando o lucro. Dessa forma, podemos hackear a classe dos vetores distribuindo informação que não obedece a regras ou padrões e interesses empresariais sem quebrar as leis, considerando que o site é um vetor de informação, que os estoques são os fatos recolhidos pelo público e o fluxo de informação é grande, dado o número de visitantes do Centro de Mídia Independente.

Aqui na minha cidade de São Carlos há uma rádio pirata nos arredores da USP, e um professor meu tem um programa nessa rádio. Um dia, ouvindo ao programa, ele colocou no ar uma gravação com dois piás que falavam sobre o CMI. O que achei interessante, afinal não tão poucas pessoas escutam essa rádio, e a divulgação foi feita de forma bastante interessante, apesar de não conseguir me recordar exatamente como o assunto era abordado. Com isso, dá pra ter uma idéia da importância do CMI.

No próximo post finalizarei a série de nome tosco, e vou disponibilizar o texto que inspirou essa série de posts.